por vezes já dividi o elevador com eles. o homem do sétimo andar e seus filhos que não podem ficar encostados na parede do elevador. ele diz pra eles que ali é sujo e eu fico me perguntando se existe algum problema psicológico em questão.
não é possível que crianças não façam nada que não seja sujo. infância é sinônimo de sujeira. meninice sem suar, subir em árvore, rolar na grama e pular na areia não existe. aqueles pequenos ficavam trancados em casa cada um com seus playstations esterilizados de bactérias e emoções mais fortes.
lá de cima, eles olhavam pela janela. viam as outras crianças correndo pelo pátio do prédio, andando de bicicleta, jogando bola. as mãozinhas passavam pela tela, quase como se tentassem alcançar os outros, lá em baixo.
foi então que um dia, em plena rebeldia, os dois resolveram aprontar uma aventura. desceram todos os sete andares que lhes separavam da infância. foram pela escada, caíram pelo caminho, machucaram os joelhos. sorriram quando viram o sangue sair dali, aquilo é que era diversão!
passaram a tarde correndo pelo chão de pedra do prédio. jogaram futebol de verdade, não o jogo do video-game. andaram de bicicleta e skate. empinaram pipa e jogaram pião. depois, no fim da tarde, deitaram-se na grama do parquinho e viram o sol ir embora. perderam a noção do tempo.
quando estavam pensando em voltar pra casa, o pai deles chegou do trabalho. a primeira vista ele nem os reconheceu, estavam extremante sujos e sorrindo, felizes.
O castigo que levaram foi um tanto severo, mas tudo valeu a pena. só assim descobriram que a infância é diversão e, acima de tudo, um pouquinho de má-criação.
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