abri a gaveta. não procurava nada em especial, mas talvez ali encontrasse algo interessante. postais, cartas, fotos.. e, então, ele.
não fugia da normalidade. preto, com um detalhe em dourado e só. dele, agora, só saiam faíscas. o fogo já se extinguira. poderia ser só mais um isqueiro esquecido em mais uma gaveta, mas não, não era.
com ele em minhas mãos, lembrei de toda aquela história. de todo o fim. de todo o começo.
o ultimo beijo. chorávamos. ela, bêbada como sempre, falava bobagens e provocações como se a minha decisão fosse mudar. tentava absorver ali tudo de bom que ela tinha, mas já não encontrava nada. procurava a menina que eu havia conhecido. mais uma vez não encontrei nada.
lembro de quando comprei o isqueiro. passava por uma banca qualquer nas proximidades do colégio, quando avistei aquele objeto. com o sol, o dourado brilhava. lembrei dela imediatamente.
(hoje já não sei se lembrei dela por conta do brilho ou do objeto em si)
pensei em como seria um charme quando ela quisesse acender os seus habituais cigarros. eu sacaria o isqueiro e iria acende-los, como num filme. e, assim foi por muito tempo.
foi depois do último beijo. minha cabeça estava prestes a explodir. tomar decisões avassaladoras nunca fora algo bom pra minha sanidade. revistei meus bolsos e, enfim, encontrei o que eu procurava, mas que torcia pra não encontrar. os cigarros dela. coloquei um na boca, como nunca havia feito antes, saquei o isqueiro e tentei acende-lo. uma, duas vezes, três. dali, fogo nunca mais saiu.
coloquei o isqueiro na gaveta mais uma vez. já fazia tanto tempo que ele havia apagado. não acenderia mais.
estava lá. como mais uma memória.
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