sábado, 5 de dezembro de 2009

lost inside.

embaixo da cama, na mochila, atrás da televisão, no rodapé. embrenhava-se por cada pequeno compartimento, cada minúsculo cômodo, procurando. procurava mais alguma coisa, como sempre. não prestava atenção quando guardou, não tinha a menor idéia onde agora estava. e então pensou "ah, é só um isqueiro. eu compro outro."

ela ligava para ele, chamava para uma nova boate. ele o ligava e convidava para um jantar. sua mãe o ligou, semanas atrás, para avisar que o velho cachorro da família havia morrido. não atendia os telefonemas, não retornava. deixava as cartas de lado e os recados da secretária eletrônica era apagados sem serem ouvidos. e numa tarde qualquer, quando o sol entrava na janela encontrando a madeira e liberando aquele cheiro de saudade, ele sentiu. pegou o telefone, pensou em algumas pessoas, mas já não sabia seus números. procurou na lista, não achou ninguém. em cima da escrivaninha tinha o telefone da mãe anotado, chamou, chamou, chamou. uma voz estranha atendeu, quando perguntou pela mãe soube apenas que há muito ela havia mudado de casa e telefone. e então pensou "ah, são só pessoas. saio hoje e encontro alguém novo pra conversar."

já era madrugada, um dia normal tinha acontecido. sentiu um aperto grande no coração. levou a mão ao peito, assustou-se. não havia batimento ali. foi mais para direita, nada. mais para a esquerda, nada. onde estava seu coração? apalpou a barriga, os estomago, buscou pulsação na veia do pescoço. partiu pras pernas, pros braços, até os pés. não achava, não estava ali, havia perdido. e então pensou "ah."

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