segunda-feira, 8 de março de 2010

the art of leaving.

o ônibus balançava. um solavanco e ela quase caia, segurou desajeitadamente e me olhou com uma careta de força e descontrole. eu olhava pra ela com aquela careta típica de possuidores de fotofobia, olhos espremidos, minúsculos, várias rugas se formando. sentei ao lado da janela, ela sentou ao meu lado.

era meio dia e o ônibus balançava. estava cansado e sentia o cheiro dela chegar até mim. o sono bateu e resolvi me espreguiçar, coloquei, em ato de puro egoísmo, o braço na cadeira dela, por cima de seus ombros. ela me olhou e eu permaneci imóvel, olhei para a janela e não me movi um centímetro, sem mudar de expressão. segundos depois sinto um peso em meu peito. devagarzinho, ela aproximava-se e ia recostando-se, delicada, sem pedir licença.

deixei-a ficar completamente em contato comigo, coloquei meus braços em seus ombros e a trouxe para mim. éramos um homem e uma mulher abraçados em um ônibus, um homem carente e uma mulher carente, exaustos acima de tudo. não sei por ela, mas por mim falo que estava exausto daquilo, de interações com palavras nulas, de rostos sem carinho, de amar e não amar.

a luz do sol quente batia em meus braços, ela brincava com seus dedos por ali, calor de sol, calor de pele. havia tempo que não via tamanha sinceridade em algo costumeiramente tão banal, pele com pele. ela me olhava e sorria.e então o ônibus parou, a porta se abriu.

sentia tanto calor, levantei-me devagar, não encarei, não sorri e pulei pela porta enquanto o carro partia em movimento. senti a luz do sol nos olhos e eles ficaram miúdos e enrugados, andei alguns passos, concentrado, inabalado, acostumado.

o tempo estava tão frio.

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