sábado, 5 de janeiro de 2008

pais e filhos

*Proscênio

Alguém: A cada dia que passa o homem torna-se possuidor de mais conhecimento. Conhecimento, esse, que abrange diversas áreas, como: biologia, geometria, física, psicologia... O engraçado é que apesar de todo esse conhecimento nunca ninguém chegou pra me explicar a razão de nossos relacionamentos com nossos pais serem tão... complexos.


PAI NÃO ENTENDE NADA.

*Abre a cortina

(Pai e filha no sofá)

Pai: Um biquíni novo?
Filha: É, pai!
Pai: Você comprou um ano passado!
Filha: Não serve mais, pai. Eu cresci.
Pai: Como não serve? No ano passado você tinha 14 anos, este ano tem 15. Não cresceu tanto assim.
Filha: Não serve mais, pai.
Pai: Está bem, então. Toma o dinheiro. Compra um biquíni maior.
Filha: Maior não, pai. Menor.

*Fecha a cortina


*Proscênio

Alguém: Foi mal , mas às vezes eu acho que eles fazem de propósito. Ah, eles devem fingir que não entendem, não pode um cara ser tão por fora assim.


A DESCOBERTA.

*Abre a cortina

(Pai sentado no sofá / filho chegando)

Filho: Papai!
Pai: Meu filho, dá um abraço. Há quanto tempo...
Filho: Quando foi que o senhor chegou?
Pai: Agora há pouco. A empregada abriu a porta, quando soube que eu era seu pai me mandou entrar. Aliás, essa empregada, não sei não...
Filho: Por que, papai?
Pai: Você, um rapaz solteiro, num apartamento, com uma empregada assim...
Filho: Ela só vem de dia. Quase não nos encontramos.
Pai: Você parece ótimo, meu filho.
Filho: É, estou muito bem... por que, mesmo, que o senhor não avisou que vinha?
Pai: Quis fazer uma surpresinha!
Filho: é, e fez mesmo.
Pai: Pois até parece que você me esperava. Está tudo tão arrumado, livros por toda parte. Pensei que fosse entrar aqui tropeçando em mulheres.
Filho: Que é isso, papai...
Pai: Do jeito que isso aqui está parece que você passa o tempo todo estudando... Aposto que é pra conquistar as gatinhas intelectuais, não é, garanhão?!
Filho: Ora, papai...
Pai: Falando em gatinhas, cadê elas? Pelas suas cartas eu entendi que aqui era mulher noite e dia, sem parar!
Filho: Não, Não. Pra falar a verdade...
Pai: Ô, meu filho, traga aí uma bebida pro seu velho.
Filho: O senhor está falando sério?
Pai: Como não? Sou eu que pago por isso, pelo apartamento, as roupas, as noitadas nas boates, os presentes pras várias namoradas, a aparelhagem de som... eu quero poder aproveitar também!
Filho: Papai... acho que só tem guaraná.
Pai: E o uísque importado que você pediu dinheiro pra comprar?
Filho: Papai, as minhas cartas...
Pai: Não se preocupe, meu filho. Escondi todas da sua mãe, pode se acalmar.
Filho: É que... eu exagerei um pouco nelas, nas cartas.
Pai: Como assim?
Filho: Sabe o dinheiro que eu pedia pra comprar presentes para mulheres?
Pai: Sim?
Filho: Era pra comprar livros de estudo, pra mim.
Pai: Não, meu filho! E o dinheiro pras noitadas em boates?
Filho: Gastei em material de pesquisa.
Pai: Você quer dizer que gastou todo o dinheiro que eu lhe dei...
Filho: Com a Universidade e com material didático.
Pai: NÃO ACREDITO! Você não faria isso com seu paizão!
Filho: Papai...
Pai: Meu filho, que decepção!

(Pai começa a passar mal)

Filho: Papai... Pai, você está bem?

(Dona Zulmira, a empregada, entra na sala)

D. Zulmira: Que foi, fi?
Filho: Traz um copo d’água, rápido!
Pai: Pode ser refrigerante, meu filho.
Filho: Um guaraná, rápido!
D. Zulmira: Mas não tem guaraná.
Pai: NEM GUARANÁ?
Filho: Calma, papai. Traga a água, D. Zulmira.

(D. Zulmira sai da sala)

Pai: Aaaah, meu filho! Você podia ao menos ter arrumado uma empregada bonita ao invés dessa velhota!

(D. Zulmira volta)
D. Zulmira: Aqui está a água, doutor!
Pai: Obrigado.
Filho: Obrigado, Zulmira. Pode ir.

(D. Zulmira sai)

Pai: Meu filho, e a aparelhagem de som? O dinheiro que eu mandei pras caixas de som gigantescas, a picape de DJ e a luz de discoteca?
Filho: Foi pra comprar um microscópio, papai.
Pai: AAHNNN?! (Desmaia)

*Fecha a cortina


*Proscênio

Alguém: Ok, acho que eles realmente não têm a capacidade de entender a gente.


O BONECO.

*Abre a cortina

(Mãe dando um boneco de presente ao filho)

(Filho desembrulha e observa o presente)

Filho: Legal.

(Filho examina o brinquedo)

Filho: Como é que se liga?
Mãe: Não se liga, filho.

(Filho procura por alguma coisa na embalagem)

Filho: Não tem manual de instrução?
Mãe: Não, não precisa de manual
Filho: O que que ele faz?
Mãe: Ele não faz nada. Você faz coisas com ele.
Filho: O quê, por exemplo?
Mãe: Sei lá.. coloca ele pra dançar, lutar, voar...
Filho: Ah, então é um boneco.
Mãe: Sim, é um boneco.
Filho: Um boneco, boneco. Boneco, mesmo.
Mãe: Você pensou que era o que?
Filho: Nada, não, mãe.

Filho: Brigado, mãe.

(Filho corre pra frente da tv e vão jogar vídeo-game)

(A mãe fica ao lado da tv colocando dois bonecos pra brigar)

Filho: Legal. (Sem desviar o olhar da tv)

*Fecha a cortina


*Proscênio

Alguém: O propósito da peça era tentar entender o atual relacionamento de pais e filhos. Talvez tenhamos escolhido os contos errados ou escrito falas totalmente sem conteúdo para este que vos fala. Mas quem sabe esse não era o certo a fazer? Acreditamos que esse segredo da ciência moderna tem que ser desvendado por cada um e pelos seus respectivos pais.
Já dizia Renato Russo: “Você me diz que seus pais não lhe entendem.
Mas você não entende seus pais.”



















essa é a peça que eu vou propor ao povo lá da minha sala. eu gostei e vc?

4 comentários: