ele escreve esta carta. esta, de bordas milimetricamente queimadas por um isqueiro bic qualquer, afanado de um parente aleatório que aparece para o almoço de domingo. as bordas já queimadas e a folha amassada o encaram, move o lápis entre os dedos, ele sabe que deve escrever de lápis. de lápis, pra um dia ela encontrar a carta de bordas milimetricamente queimadas e papel amarelado e só ver poucas palavras ainda escritas, "amor", "felicidade", "eterno". ele riscaria as palavras escolhidas mais forte, sabe que elas ficam. e elas ficam, as palavras. ficam-se as palavras e vão-se os significados. é disso que ele não sabe, ele não sabe que já não há amor que não se apague como grafite, não há felicidade que não se amarele como papel e que não, nem o eterno é eterno. talvez, não existir seja eterno. pois eterno não, não existe.
move o lápis entre os dedos, ainda, o rapaz. os dedos alcançam as têmporas, ele pensa. quem tem que pensar para escrever uma carta de amor? ele pensa. quem sabe já não seja uma carta de amor, seja uma carta descarrego, talvez. uma carta de sentir demais, uma carta de algum sentimento-quem-sabe-até-melhor-que-o-amor. reflete sobre frases, "meu amor queima por você", ele ri e, sem perceber, fala alto: - que brega! e é disso que ele nem sabe, o amor é brega, não é eterno e pode sim, não ser necessariamente o melhor sentimento a se sentir.
a casa toda escura, os carros passam pouco pela rua consumida pela madrugada. ele tem medo. de não conseguir escrever, de não conseguir se expressar, de escrever baboseiras, de escrever e reler e acabar por queimar não só as pontas, mas a carta inteira. e se? e se não fosse amor, e se ela tivesse transando com um cara qualquer nessa exata madrugada, e se naquela manhã ela não tivesse ido a praia, e se? qual seria o destino dessa carta, de amor ou não, que parece não querer ser escrita? e se fosse amor, qual seria a explicação? um mês e meio de ver pôr-do-sol juntos, de completar letras de chico buarque, um mês e meio de corpos quentes se encontrando em noites solitárias. e se ele fosse só mais um romântico, e se ela fosse só mais uma mulher independente que não precisa de ninguém. e se? ele tinha medo.
por que ele mantinha todo esse medo? não sabia. talvez pela dúvida, de amor ou não. pensou então, que não sendo amor, não haveria medo. e parou aí, para lembrar do que mais lhe dava medo, pessoas mortas, altura, acidentes de carro, in-cên-dios, pensou assim, sílaba por sílaba. cabeça de lado, olhar fixo na janela, percebeu ali que era brega e amedrontador, o amor. o sol começava a aparecer, a carta branca apresentava, em seu papel, algumas manchas de suor, mãos nervosas. seria o amor bom, seria ruim? seria real, seria um bonde só de ida? passava os dedos no papel e queria dizer não. não ao amor, ao medo, à impotência de ter, em mãos, uma carta de bordas milimetricamente queimadas e não conseguir escrever. seria importante colocar no papel o que o olhar dela faz ele sentir? seria isso, o amor? ou seria aquilo? o amor?
o sol já lhe batia o rosto de tal forma a fazer-lhe contrair os olhos. resolveu fecha-los. em uma noite onde ia escrever sobre amor, acabou-se numa dúvida a respeito de sua existência. da existência própria também. por que, se não para isso, pra que vivem as pessoas? ele sempre disse que fechar os olhos para raciocinar melhor funcionava. e funcionou, dessa vez. não para achar a resposta do dilema, não para saber o que escrever na carta, não para conhecer mais sobre amor. funcionou para que assim que as pálpebras se acomodassem sobre o conjunto pupila-íris-e-qualquer-coisa-mais, ele a visse. ela, a destinatária da carta de amor ou não.
foi vendo-a, enquanto estava de olhos fechados, numa noite epifanica que virara manhã, que percebeu. ele já não se importava se fosse amor, e que não tivesse medo. que tivesse medo, e que não fosse amor. podia ser algo qualquer. era inegável, ele sentia ela, nele.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário