todo dia, santo ou não, ele estava lá. chegava de mansinho, procurava onde sentar. um dia encontrou uma cadeira em um cantinho qualquer, abandonada. pra ele, ela parecia não muito confortável. mas ao sentar-se na cadeira, ele pôde perceber o quão perfeita ela era. parecia ter sido feito, moldada, pra ele. acomodava-lhe tão bem quanto qualquer cadeira que ele mesmo comprou e escolheu.
ele passou a sentar-se lá, na cadeira, todos os dias. ficava por horas. tinha até um carinho especial por ela. por vezes, antes de chegar, tinha medo de alguém estar sentado nela. ensaiava as palavras que diria a quem cometesse tal insanidade, tentasse tomar sua cadeira.
então, enfim, chegou o dia. chegou na hora que sempre costumava chegar, sentou como costumava sentar. ficou ali por algum tempo sem fazer nada especial, como sempre fazia. foi em meio as suas longas piscadas que ouviu o "craque" e sentiu-se no chão. é, ele realmente estava. a cadeira havia quebrado.
não acreditou que a cadeira pudesse, um dia, fazer aquilo que fez. porém, resolveu acreditar que o grande problema era com ele. provavelmente estava muito gordo, tinha se movido demais, ou talvez fosse só a fragilidade da cadeira.
ele consertou os pés da cadeira. tratou-lhe bem como sempre fazia, com aquele carinho totalmente irracional com que ele a tratava. quando não estava com ela, procurava treinar o controle dos movimentos, seguia uma dieta regrada, fazia exercícios. era seguido por uma constante inquietação a respeito da sua tão amada cadeira.
era um dia de sol. acordou-se mais tarde do que o normal, estava atrasado para sentar-se em sua cadeira. tinha uma sensação estranha, parecia que algo ia acontecer. sem muito ligar pegou o jornal na banca e seguiu para seu diário encontro.
chegou e sentou-se logo na cadeira, ficou cerca de dois minutos ali. virou um pouco o corpo pra esquerda, depois pra direita. foi pra frente e, então, pra trás. não achava a posição correta. não achava o seu lugar. levantou-se e voltou a sentar algumas vezes, mas não encontrou.
ia tentar um ultima vez, mas ao se levantar parou e olhou a cadeira. pensou no motivo de tamanha persistência para sentar numa cadeira que havia mostrado claramente que não o queria sentado lá. jogou o jornal no assento, virou as costas e foi embora.
o jornal já não está mais lá há algum tempo. nem ele, nem ninguém.
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Adorei o fim da saga da cadeira... O outro texto foi meio triste, não que tenha sido ruim, mas achei esse melhor :D
ResponderExcluirbeijos!