quinta-feira, 3 de junho de 2010

por nós.

te vejo de manhã, sol refletido nas tuas carnes brancas. olho a sala vazia, invadida pela pobreza e te vejo sem roupa, ali no meio, perto das janelas sem cortina. sem cobertas, dando para ver através, mas sujas, turvas, as duas.

você, a moça que não fala o que pensa, olhar intimidador de quem procura assustar pra não admitir o proprio medo. me diz, vai, me diz, por que você sempre acaba fugindo? some e retorna, sem avisar, sem deixar bilhete qualquer. tenho sempre que me esgueirar pelo corredor, pra te ver nua ao nascer do sol, pra acompanhar teus passos em direção a porta que nunca consigo definir se são os últimos ou não.

não me deixa. já pensei em te dizer isso assim, sem qualquer drama, sem qualquer sentimento além desse, de não te querer longe, de querer ver tua pele refletindo a claridade. não quero te fazer de abajur na minha sala, te ter lá dia após dia, eu só não quero que você vá embora sem qualquer explicação, não me deixe.

me avisa, poxa. me diz quando você volta. penso que poderia fazer café da manhã, se você não quiser não faço nada, finjo não ter expectativas e que te encontrar na sala ao voltar do trabalho seja uma supresa. já te deixo até a chave, dentro do jarro, debaixo do tapete. eu só não aguento mais isso, essa falta de esperança que se apodera de mim logo quando eu te vejo, esse meu saber de que você vai embora. pior, saber que eu não sou o suficiente pra te impedir.

poderia te falar tudo isso, sempre poderia. mas não hoje, hoje acordei cedo pra te ver ainda nua na janela e te vi, te vi vestindo a roupa e saindo. te vi atravessar a rua e então fui. fui levar minha vida sem você, porque a vida com você não é mais que noites de sacanagem e poesia, amor e carne.

fiz café, sentei na sala e fiquei esperando qualquer coisa, qualquer cantar de passarinho ou batida de carro na rua, coisas assim que não acontecem. ouvi um barulho vindo de fora, com preguiça olhei ao redor. te vi na minha porta, emanando luz, com um vaso numa mão, chave na outra.

todas as vezes que fui, fui por ti e voltei por mim. mas existe um ponto onde mim e você já não existe, fico por nós. ela me disse, no meio da sala, entre sorriso e lágrimas. então fica, respondi tirando-lhe o jarro da mão.

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